:: No pé do ouvido



Do mundo criado

Do mundo criado

 Eu me lembro muito bem do dia que eu parei de me achar inteligente. Foi em um dia que eu resolvi sabe lá Deus porquê parar de estudar na véspera, parar de esperar professor e comecei a sistematizar meus estudos.

Sabe-se lá o porquê, mas em meio ao tédio de não ter o quê fazer, eu comecei a fazer todos os exercícios da apostila, sem faltar um. Comecei a grifar e a fazer resumos antes da professora dar aula. É o tédio daqueles professores que andam a passos de tartaruga me fizeram querer estar na frente e eu gostei disso.

Gostei de não ter de copiar matéria da lousa, porque “ó professora: eu já fiz o meu resumo”. De não ter de prestar atenção naquela resolução de exercício de matemática porque eu já tinha terminado o capítulo e de ser aquela número um chata da sala-de-aula.

Sabe-se lá porque, mas eu fiquei tão entediada com aquela escola, que eu passei a freqüentar a biblioteca diariamente e a passar meus intervalos lá.

Passei também a detestar estudar para a prova, detestar fazer trabalhos e detestar ter de ler algum livro por obrigação, porque poxa, eu estudo sozinha. Deixe-me quieta no meu ritmo pelo-amor-de-Deus.

Eu tinha só treze anos, passei a planejar minha vida, a amar cada dia mais os livros e a precisar ainda mais deles perto de mim. Passei a memorizar a gramática, a fazer meus esquemas, corrigir tudo em busca da excelência, porque tirar nota não importava mais, era só mais uma das necessidades de ser eu. O importante para mim era aprender, mas é claro que eu não reagiria positivamente a notas menores de nove.

E nesse aprendizado todo, passei a querer que as pessoas enxergassem o mundo como eu, a sonhar com um príncipe e não um sapo, a querer conversas com conteúdo, a procurar pessoas como eu, a sentir a música de maneira diferente, a odiar ainda mais todo aquele sistema que a escola nos obrigava a viver.

Passei também a querer memorizar todas aquelas palavrinhas daquela língua que eu vinha estudando bem, só que não da melhor maneira possível.

E no meio de tudo isso as pessoas passaram a me dizer que daquele jeito eu escolheria a faculdade dos meus sonhos, seria uma excelente profissional em qualquer curso que eu resolvesse fazer e passaram a me achar um ser nada normal.

E no meio de tudo isso eu passei a perceber que eu era pequena demais, teria muitas dificuldades pela frente e que para enfrentá-las eu teria de me segurar nos livros. E me segurar nos livros. Passei a não me sentir tão inteligente, porque ser melhor do que quem não se esforça não faz muita diferença.

Quis também fazer a diferença e aproveitar todas as oportunidades. Nisso, me dei bem, consegui um bom desconto em uma boa escola particular na outra cidade em que moraria. Lá, eu conheci pessoas mais inteligentes do que eu e que inclusive estudavam mais do que eu. Legal, passei a me sentir menor ainda.

Eu tive de largar minhas ideologias de lado porque eu precisaria seguir o sistema para alcançar os meus objetivos, ah, aí voltaram todas as revoltas com a escola e isso me seguiu pelos próximos três anos de colegial e principalmente depois de mudar de escola e ter de me adaptar a um método totalmente diferente.

Porque para mim, mesmo depois de passar no vestibular, mesmo depois de terminar o colegial com médias excelentes e ser elogiada constantemente pelos professores e amigos pelo meu constante esforço, para mim, sempre faltava alguma coisa.

Porque para eu me dar por satisfeita faltaram aqueles montes de livros fora da lista de vestibular, porque para mim faltou aquele meu site sobre livros que eu tanto amava, porque para mim ainda faltava atingir aquele nível que me faria sentir contente comigo mesma.

Sabe-se-lá-Deus o porquê de eu exigir níveis dignos de heroísmo, de querer sempre fazer tudo da melhor maneira possível. De ter desejado e estudado tanto para entrar naquela faculdade, mas mesmo assim não querer prestar vestibular de novo, porque é hora de seguir em frente, o plano B, ainda tem que acontecer, porque o tempo passa e você não pode perder um ano para ficar estressada e aborrecida como você ficaria fazendo faculdade em qualquer dos lugares.

Porque no meu mundo, na minha cabeça, mais ou menos é menos, ficar horas no computador significa ficar estressada semana que vem, mesmo sabendo que eu precisava dar um tempo e que fazer as coisas em cima da hora às vezes é a melhor alternativa para não pirar.

E foi nesse período todo que eu passei a me sentir cada vez menos inteligente, menos extrovertida, menos bonita, menos legal, mais chata, mais diferente e mais sozinha. Fato: os livros jamais me abandonaram e continuam por pedir minha atenção. Ah, e as regras no meu mundo são cruéis viu. Não queira viver nele, nem sei se eu ainda quero.

Perdi o prazer, perdeu a graça, porque o que era natural passou a ser obrigação e dessa vez não foi a escola ou a faculdade, fui eu. E quando eu me dou conta, vejo o quanto egoísta e egocêntrica pareço ser, será que tudo isso é falta dos reais problemas e da vida agradável que Deus me proporciona? Poxa, eu sou agradecida, juro que sou. Talvez se eu pensasse menos, vivesse mais. Talvez, mas e aí, quem eu seria? Eu ainda quero fazer a diferença, só estou um tanto quanto cansada de viver de cobranças e de planejar tanto.

Postado em: no pé do ouvido.

*o texto vai sem alteração, com vírgulas erradas e conjunções e verbos repetidos.



Postado por: A.C. às 13h07
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O meio

O meio

Prefiro finais de ano. Melhor dizendo: adoro a sensação de dever realizado. Meus começos de ano são sempre dramáticos demais, pensativos demais, acredito que o intervalo entre dezembro e fevereiro - além de servir para reencontrar amigos - transformou-se em uma época de projetos.

Nada contra projetos, aliás, preciso deles para viver, contudo se prender demais aos projetos é um grande problema. Porque a vida falha. Falhamos. Muitas vezes não por leniência, simplesmente porque tínhamos de falhar e pronto.

E a falha nos leva a sensação de derrota. Amarga. Ainda mais para os acostumados a vencer. Uma simples linha fora de rota torna-se um trauma grandioso. Por mais que os planos intermediários tenham sido atingidos a expectativa não alcançada segue para sempre.

Nos últimos meses, sofri pela primeira vez as conseqüências de atos exclusivamente meus. Drástico você permanecer em contato o dia inteiro com a única pessoa responsável pela vida levada. Drástico e reconciliador. Porque como as decisões foram suas, mudá-las ou transformá-las só cabe a você, e por mais contraditório que pareça, desistir se torna mais difícil.

Afinal, a tentação de retornar a planos utópicos é inerente, voltar a um ponto de sonhos aparenta ser muito mais fácil do que encarar uma das alternativas do antigo sonho. Uma nova tentativa de reencontrar o “plano A” pode converter-se em uma doença. A doença do “não querer seguir em frente”.

Chegamos aos meados do ano, a parte mais interessante, durante esse período a sensação de não saber onde “isso tudo vai acabar” domina. E você por vários meses só segue as datas, os dias, aproveita como pode. No meio do ano, não existe mais o voltar atrás, somente o seguir em frente, tempo demais gasto com “antigos novos projetos” para simplesmente abrir mão dos mesmos.

E espero chegar, naquele final de ano,  com a sensação de “foi difícil, mas eu consegui”. Muitas vezes não da maneira em que eu planejava, sonhava e gostaria de ter realizado. Hoje, prefiro chegar no final e poder iniciar um novo projeto. Renovar de fato, planos antigos demais tornam-se velhos, acumulam poeira e convenhamos, nós não somos velhos como nossos planos. Pelo menos, eu decidi não ser, não mais. 

 Uma linha por vez, obrigada. ;)


Postado em: No pé do ouvido

*editado em 10/05



Postado por: A.C. às 23h27
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Ariadne Celinne, 17 anos, estudante de Direito da UFMS. Objetos inseparáveis: Óculos, livros, computador e mp3. Diversão: Livros, séries, congressos jurídicos (hahaha).
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