Isabella
O espetáculo tomou as rédeas das investigações da morte da Isabella. O país se chocou e os telejornais nunca foram tão assistidos (a audiência aumentou em até 50% nessa última semana), e a Polícia cumpriu os prazos (disse que chegaria a uma resposta até nessa sexta-feira). O pai de Isabella foi indiciado por homicídio doloso.
Não entrarei nas minúcias da investigação, até mesmo porque os jornalistas estão desempenhando de forma magnífica (para aqueles que gostam sensacionalismo) as investigações. Sim, as investigações. Porque para ser jornalista deve-se ter mais do que um “quê” de detetive.
A família dos suspeitos, os suspeitos foram ao banheiro? Foram ao supermercado? Estamos sabendo. Comeram? Estamos sabendo. A busca pela audiência transformou o país, as discussões nas ruas, os comentários até mesmo em aulas, na exploração de um caso só.
Parece-me que os crimes pararam de acontecer, os assassinos de matar, outros de morrer. Pessoas continuam a morrer de fome, a miséria não deixou de existir, a (eterna?) disputa pelo poder no Oriente Médio faz dezenas de vítimas diariamente, contudo, até que as investigações do caso Isabella terminem qualquer informação diferenciada permanece em segundo plano.
Não critico as investigações, os culpados devem ser achados e os trâmites legais necessitam de prosseguir, é claro - até mesmo porque demorarão anos até que eles possam atingir o tão almejado fim. Critico sim, a postura de uma imprensa sensacionalista e a resposta mais do que rápida de uma Polícia desesperada para demonstrar eficiência.
Espero da eficiência a verdade e não a manipulação. Não cabe a mim questionar a investigação. Confesso ser resistente em aceitar a idéia de que um pai jogaria sua própria filha pela janela, porém casos bárbaros acontecem diariamente, por quê esse não seria possível?
No entanto, pessoas chegam a se deslocar até 400 km para jogar pedra nos possíveis culpados de um assassinato. Os suspeitos precisaram de muitos seguranças e uma grande movimentação da polícia faz-se necessária. Clamor por justiça? Vontade de transformar a realidade do país?
Li essa semana nos comentários de um blog político um leitor que dizia “parem de matar a Isabella todos os dias”. Faço da frase dele a minha frase. Dar respostas aos casos principais é fundamental, o resto dos assassinatos? Esses demorarão anos até serem resolvidos, se o forem, o caso da Isabella foi (?) hoje.
Ps.: É fundamental a lembrança de que só podem ser chamados de fato assassinos e criminosos depois da sentença final do juiz. E não estou defendendo bandidos, somente o bom senso. Quero a solução do caso tanto quanto o resto da população, só não acho justo com a Isabella a exploração de sua imagem para o lucro e a conclusão do crime um julgamento precipitado (alguns canais de comunicação ainda mais sensacionalistas já chamavam a madrasta e o pai de assassinos antes mesmo do laudo final dos médicos). Clamo por uma justiça e por um pudor maior. Um respeito a dor. Cantar parabéns a Isabella no meio da rua? Lamentável.




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